sábado, 22 de outubro de 2016

"Esconder minha sexualidade quando criança me tortura até hoje": uma dissonância possível.

   Li o texto referente ao título deste post a pouco tempo, e fiquei pensando como as trajetórias LGBTQs são diversas entre si. Para quem quiser ler o tocante texto de uma criança que escondia sua sexualidade dos outros vai o link AQUI.
   
   Diferente do Gael, não tinha orgulho da minha letra, que continua parecendo a de um aluno do 5º ano, mas diria que ao menos confiante desde o final do Ensino Médio. Ela sempre foi redondinha, mas antes poucos a entendiam.
   Cuidados com material eu tinha, pois sabia que meus pais ralavam e muito para me manter em uma escola que eles consideram de "qualidade", todavia durante o ano letivo os cadernos perdiam suas capas e os livros soltavam páginas.
   Também não tinha a menor paciência para usar cores diferentes de canetas para as anotações, eu também costumava perder estes materiais menores e sem as etiquetas com meu nome, então os evitava ter para não rolar aquele sentimento de culpa sobre o desleixo.
   Até a quarta série, tudo ocorria sem a menor suspeita, pelos menos para mim, nem sabia que as pessoas faziam sexo, muito menos que vivíamos em um mundo machista, sexista, classista e racista. Mesmo morando em um bairro periférico da grandiosa São Paulo.
   Sempre brinquei com minhas duas melhores amigas até a época, filhas de amigos do meu pai e da minha mãe e que moravam na vizinhança. Qualquer brincadeira era interessante na época: bola, boneca, vídeo-game, taco, baralho, dominó, pega-pega, esconde-esconde, lego (meu preferido), etc.
Euzis na festa junina 
com a minha parça.
   Até que boatos de meninos sobre masturbação, mulheres peladas, revistas e programas de TV na madrugada, paus duros... começaram a rondar a sala de aula, ou melhor, o pátio, pois estudar em uma escola católica não nos dava muita liberdade.
   Foi a primeira vez que me senti deslocado. Sinceramente achei que eu era assexuado. Sério! Pensei que talvez eu fosse igual a alguns exemplos: o meu vizinho Zé, minha tia avó, entre outros, [pois eu não os via com outras pessoas] Acreditei por um breve período de tempo (até a polução noturna ter me pego de surpresa) que eu não sentia atração por ninguém e teria que viver sozinho.
   

15 comentários:

  1. Minha maior lembrança de infância e de pensar "preciso esconder isso e parecer normal" foi quando eu tinha uns 8 anos e estava num clube com meus pais. O banheiro/vestiário tinha chuveiros com cortina ou não, e eu e minha mãe sempre preferimos com cortina (exibicionismo não está no nosso sangue rs), mas tinha uma mulher tomando banho em uma cabine sem cortina, e quando eu a vi nua lá, eu lembro que meu coração disparou e eu fiquei vermelha. Mas eu via que todas as outras mulheres ignoravam a nudez dela, menos eu. Até hoje minha mãe não sabe que sou bissexual (apesar de todas as minhas dicas rs).

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    1. "parecer normal" - fingir que a nudez daquela mulher não mexia comigo. Porque era normal pra mim, mas não pro resto.

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    2. Jaque,
      pois vivemos indo de um lado para o outro, em um movimento de alteridade e identificação. Ora, temos o 'padrãozinho' como norma, ora nos afastamos dela.
      Há muitos que descobriram coisas fantásticas em algum momento da vida e resolveu guardar a sete chaves e com todo esforço se distanciar destes sentimentos que nos afastam do tido normal.
      Espero que você e sua mãe sejam muito felizes com esta 'cortina' se abrir e mostrar pra ela que você vai continuar sendo a mesma Jaque de sempre.
      Abraços.

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  2. Nossa bee... li seu texto e super me identifiquei!!

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    1. Ro...
      Valeu por ler e compartilhar. Conta aí seu história também.
      Bjs e abraços.

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  3. Nossa bee... li seu texto e super me identifiquei!!

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  4. Oi!
    Antes de mais, parabéns pelo desabafo! Tem alguns aspectos em que ao ler o teu texto me surpreendi, já que passei pelo mesmo. É sempre bom encontrar outras pessoas que tiveram experiências semelhantes, deixa de rolar aquele sentimento "absurdo" que "é só com a gente!" xD

    Abreijos. :)

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    1. Oi, João,
      Valeu pela visita, ainda estou trabalhando nas resenhas de filmes que você sugeriu...
      Fiquei curioso em saber quais são estes pontos de contato entre nossas histórias,
      Tinha que ser absurdo sofrer por ser diferente, né não? Que aprendamos a ser mais respeitosos com quem nos rodeia e que consigamos construir um mundo realmente melhor para todos.
      Abraços.

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    2. Oi! :D
      Obrigado pelo interesse pelos filmes! Já procurei ver o "Campo Grande" mas ele não saiu cá em Portugal e pela internet ainda não o consegui obter. Se conseguires, por favor diz-me alguma coisa, está bom? Te deixo o meu email: phantanilus@hotmail.com

      Quanto aos pontos em comum, são os seguintes:

      A minha letra inicialmente era gigante! Eu sou canhoto e ainda sou do tempo [como se fosse há muito, ahahah! Foi na década de 80], em que se castigavam as crianças por escrever com a mão esquerda. Apesar de todos os castigos e reprimendas, até hoje escrevo com a esquerda, embora para muitas coisas seja destro. Obrigaram-me a escrever naqueles caderninhos de 2 linhas, para escrever letra bem pequenininha e de facto a minha letra melhorou, embora durante muito tempo eu próprio ficava triste por escrever de jeito diferente...

      No que respeita aos cuidados com o material, eu era o aluno exemplar! Além dos cuidados com material, era muito caladinho nas aulas! Tímido como só eu, até passei vergonhas, como no dia em que não aguentei mais e não pedi à professora para ir no banheiro, tendo de vestir uma "saia" improvisada, enquanto minhas calças secavam! Foi a primeira vez que vesti uma saia, ahahah! :P

      Eu até à 5ª classe fui bem ingénuo. Não dizia palavrões e nada sabia sobre o sexo. Pelo menos, não intencionalmente. Por amarguras da vida, enfim, já tinha passado por algumas coisas nesse campo. Só não "ligava" ainda as coisas. Meu tio me dizia que era algo bom e eu assentia com a cabeça... Pouco depois dele me ter feito isso, bom, comecei a explorar o meu corpo, mas ainda sem aquela noção que era alguma coisa sexual. Era aquela exploração típica das crianças, praticamente inconsciente.

      Foi quando comecei a ler uns fascículos que saiam numa revista com bonecos a abordar a sexualidade para crianças, que percebi tudo o que se tinha passado antes. Porém, me recordo de ficar feliz por ver dois pénis dando as mãos e sorrindo um para o outro.

      Foi mais ou menos nessa altura que estoirou um escândalo no vilarejo onde vivo: um filho de uma professora, que por acaso me deu aulas na 4ª série, fugira para outro país com outro homem. Sendo um vilarejo pequeno, aquilo foi tema de conversa durante algum tempo, mas eu já nessa atura não entendia qual o problema.

      Eu também tinha duas vizinhas com quem brincava desde pequenino e uma delas chegou a tirar vantagem disso, tal como meu tio. Como na altura eu era bem pequeno, só muito mais tarde compreendi o que acontecera. Dentro das brincadeiras típicas de criança, tal como tu, eu gostava mais dos lego, playmobil e também gostava de brincar com os pinnipon, um brinquedo mais endereçado a meninas.

      Quando meus colegas começaram a abordar os temas sexuais, me senti deslocado também. Eu não sabia o que eles estavam falando. Acho que só vi o meu primeiro filme pornográfico já teria os meus 15 anos! [E conteúdos gays, só bem mais tarde!] xD

      Abreijos meu amigo! ^^

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    3. João,

      Ainda torço para que várias produções brasileiras cheguem ao menos ao Netflix. Seria um facilitador ao acesso de muitos títulos bons que ficam escondidos por aqui. Se souber onde conseguir uma cópia virtual te aviso.

      Curti muito a sua reflexão sobre a infância-adolescência. Lembrei muito do caderno de caligrafia, agora, também. Por aqui, tinham umas linhas verdes para regular onde as letras deveriam ser escritas. Hoje como professor vejo o lado positivo da liberdade de escrita pelos alunos.

      Estou um lendo um livro agora (já publicarei uma resenha do mesmo), onde há inserções de um diário e em seguida uns comentários. Vou copiar o modelo aqui: sobre estes abusos que você relatou, conseguiria descrever mais profundamente? Acho muito difícil tocar nestes assuntos.

      Abraços.

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    4. Oi Ronaldo!
      Te enviarei um email mais logo sobre isso.
      Entretanto, muitos parabéns pelo 1º ano de blog! Venham muitos mais, já que tu escreves mesmo bem e o teu blog é dos que mais gosto de ler e acompanhar!

      Abreijos :3

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  5. muito bom seu texto, me identifiquei com muitas coias, eu tb era bem assexuado ate a setima serie, ou mais! vou ler aquele original que usou como ideia! abs belo texto

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    1. Acho até engraçado esta ideia fe se considerar assexuado quando todos nao são, mas pensando melhor é uma possibilidade também e não deve ser menosprezada. Abraços.

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  6. Respostas
    1. Para todos nós humanos...
      Abraços e obrigado pela visita.

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Agradeço muito a sua participação! Abraços!

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