segunda-feira, 30 de maio de 2016

Closes na periferia

   Para começar a me preparar para o feriado Gay em São Paulo compareci ao Cine Campana (acontece toda última quinta do mês na Casa de Cultura do M'Boi Mirim). Houve exibição de dois curtas, seguidos de um bate papo com quatro militantes das causas LGBTQ, racial, feminista e periférica. Foi show. (Ainda não consegui os links dos vídeos, nem sei se estão disponíveis)
 "Translúcidos" é um drama sobre a vida de sujeitos transexuais internados em um centro de reabilitação psiquiatrico, poéticamente perturbador. e "Barraco Periférico" é um documentário que trás quatro entrevistas de mulher trans, gay, lésbica, e lésbica negra todos da periferia, acredito que esta descrição dos personagens reais dispensam maiores detalhes. Altamente recomendados.
   Ainda estou de cara em presenciar de eventos sobre estas temáticas na periferia. É claro que não haveria melhor lugar aliás, a periferia está repleta de sujeitos marcados por estas injustiças, desigualdades e oprimidos, mas nunca tinha pensado que haveria um movimento organizado para discutir e exigir direitos nela. 
   Em abril compareci ao Trans Periferia e agora pretendo virar de carteirinha do Cina Campana. Seguem meus parabéns a todos os envolvidos nestes eventos e a divulgação de um raper gay bem famosinho na mídia alternativa: Rico Dalasam.


   E como o feriadão tem alguns dias, já já descrevo o que presenciei nos próximos. E a parada que venha contudo, pois até maquiagem viada eu comprei.

sábado, 28 de maio de 2016

A arte de ser normal

   Ufa, acho que agora eu vou conseguir voltar a normalidade de postar conteúdo no blog. Aproveito para publicar a resenha do último livro que li por prazer:

   Williamson, Lisa. A arte de ser normal.tradução de Cláudia Mello Belhassof. Rio de Janeiro: Rocco jovens leitores, 2015.

   
   Tudo começa com aquela velha atividade de começo de ano na escola, especificamente no segundo ano do Ensino Fundamental, na qual a professora pede para que todas as crianças escrevam o que se quer ser quando crescer. David Piper escreve sem cerimonias: “Quero ser uma menina” e daí pra frente se torna a ‘aberração’ no discurso de sua escola no bairro de classe alta em que vive.
   Ao que tudo indica, ninguém além da sua professora, omissa com a questão de identidade de gênero, sexualidade, etc., e os colegas de classe que usam este episódio para humilhar David durante seu percurso escolar. Sua família acredita que ele passa por um momento dificíl, seus dois melhores amigos sabem que ele é gay e ele está apaixonado por um tipinho comum retratado nos filmes colegiais.
   Há um momento na história que sentimos na pele, como é ser discriminado por assumirmos um desejo erótico diferente da maioria. Aquela velha cena do refeitório escolar americano, David se encontra na fila quando é humilhado publicamente pelos colegas de sua sala quando aparece, Leo Denton, o outro personagem marcante desta história. Claro que a culpa aqui foi da vítima que existia no lugar errado quando o opressor resolveu humilhar alguém.
   Leo é misterioso, recém chegado a escola, próvem de um bairro pobre e bem afastado da escola. Ninguém sabe sobre sua vida, seu histórico e ele mesmo faz questão de passar desapercebido. Afinal ele mesmo já enfrenta muitas questões na sua casa e na sua família completamente desestruturada. Sua maior busca é por seu pai que sumiu quando ainda era pequeno, enquanto lida com a precariedade da vida, os vários amantes de sua mãe, sua irmã gêmea e a caçula com muitos anos de diferença.
   O livro retrata um semestre escolar e nos oferece um panorama da lógica homofóbica das escolas, na tentativa de instaurar a heternormatividade. O amadurecimento de dois adolescentes que precisam sobreviver é fio condutor. O livro está repleto de primeiros amores, primeiro porre, viagem escondida, brigas familiares, pé na bunda, nerdices, muitas questões LGBTQ, bullying, segredos, amizade, etc.

   Fica aqui minha parabenização à Biblioteca Parque Villa Lobos que tem no acervo alguns exemplares com questões LGBTQ. Ainda vou mandar meus agradecimentos e congratulações por algum canal oficial.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Se você parar ele te pega

   Cada vez mais eu penso no quanto eu sou imbecil de me meter em mil encontros que enforcam toda a minha agenda. Por outro lado, parece que não fico tranquilo se não tenho o que fazer, já que não me contento com TV, rotina, etc. Parece que me sabotei, mas na verdade eu gosto deste turbilhão de coisas para fazer.
   Achei que ia conseguir analisar mais um texto para minha pesquisa esta semana, mas ai eu descobri que além, do trabalho, quatro matérias da faculdade, precisei comparecer ou vou a apresentação do meu TCC no próximo sábado, um curso de matemática na quinta e no outro sábado, o curso de trans na segunda, uma palestra sobre teoria queer hoje (este eu não fui, era em Sorocaba e estava chovendo pra burro aqui), uma palestra sobre biblioteca amanhã e coisas do estágio obrigatório para resolver.
   De qualquer forma ainda estou terminando de ler o livro que comecei semana passada, já que me dediquei mais a faculdade e as leituras do trabalho (sequências didáticas, livros obrigatórios que trabalharei com as crianças). No meio de tudo isto descobri que um dos meu cantores favoritos lançou um disco novo em novembro do ano passado e eu não fazia ideia. O clipe novo é bom, santo youtube que me indicou:
   Gostei tanto de uma enquete que vi no face que vou copia-la para cá: Quem você seria no vídeo: a mulher, o silva, o loiro? Estava pensando em um texto melhor para compartilhar este vídeo, mas juro que foi a rotina corrida que atrapalhou tudo. Bjs.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Vergonha

   A definição de vergonha no dicionário é impressionantemente grande: (Referência: http://www.aulete.com.br/vergonha)
(ver.go.nha) sf.
1. Sentimento de desconforto que alguém sente devido à exposição de suas particularidades, fraquezas, defeitos, etc, ou por ter cometido gafe, ato risível ou desabonador; CONSTRANGIMENTO: Morreu de vergonha ao cair de quatro diante do ministro.
2. Sentimento ou situação de humilhação; DESONRA: A revelação de seu adultério foi uma vergonha.
3. Sentimento ou atitude de discrição, recato, em relação a questões de moral, assuntos pessoais etc.; PUDOR: Sentiu vergonha ao ler, em público, aquele texto tão imoral [Antôn.: despudor. ]
4. Sentimento de honra e dignidade em relação aos próprios valores, comportamento etc: Um homem de vergonha não aceita tal proposta.
5. Insegurança, dificuldade em se expor, tomar iniciativas etc.; TIMIDEZ: Ao entrar no salão, parecia hesitante, cheio de vergonha
6. Comportamento considerado indigno, desonesto, obsceno etc: Esse ato de corrupção foi uma vergonha.
[F.: do lat. verecundìa,ae.]
   Sou um sujeito de vergonha em muitos dos sentidos acima citados. Sinto desconforto quando me exponho para pessoas desconhecidas, sou tímido, sou inseguro. Mas considero que ser gay em uma sociedade homofóbica é como se a maioria me trata-se como alvo de humilhação, indigno, obsceno em me mostrar o que realmente sou.
   De fato cresci no limiar da identidade de gênero e por muitos sou considerado passável enquanto por outros eu dou pinta. Não me importo de ser nenhum dos dois. Quero somente ser eu, sem que ninguém fique apontando, analisando, vexando-me.
  Esta vergonha me foi imposta por não poder mostrar minha identidade borrada entre masculino e feminino, em ambientes héteros tive que segurar a franga enquanto em ambientes gays tinha que rebolar até o chão. Helow, não quero agradar ninguém e por isto deu muitos closes rudes por aí.
   Quando eu era muito pequeno ouvi algumas vezes: "Gosto é igual a cú, cada um tem o seu". Então vamos exercitar um pouco mais da liberdade alheia e cuidar do próprio corpinho, afinal "Deus deu um corpo para cada um fazer o que bem entender consigo próprio". Deixe os outros serem sem o seu julgamento.

domingo, 15 de maio de 2016

Academia cansa e faz bem...

   Não consegui postar nada sobre o livro que estou lendo esta semana, pois de novo mais matérias da faculdade foram abertas e minha vida se tornou um inferno acadêmico. Além dos textos sobre identidade de gênero aos quais estou me dedicando, ainda tive que ler sobre didática da matemática francesa (ok, este curso é legal) e sobre duas matérias da pedagogia: "gestão e administração escolar" e "o Exercício da Profissão do Professor: Questões da Cultura Profissional e sua Profissionalização", este último mais do mesmo em todos os sentidos possíveis.
   
   Bom queria divulgar aqui minha foto na página oficial do "Congresso de Práticas na Sala de Aula" organizado pelo "Instituo Cultural Lourenço Castanho" que ocorreu ontem aqui em São Paulo:
   
Apresentei esta sessão junto a minha grande amiga Maíra. Um trabalho desenvolvido ano passado com nossos alunos da Educação Básica sobre Frida Kahlo e diversos desdobramentos como feminismo, emponderamento feminino, identidade de gênero, história do México, relações entre México e EUA... 
   Para mais informações sobre este e um outro trabalho que apresentei só conferir nos anais do Congresso no link a seguir: http://www.icloc.org.br/congressoicloc/livros/8congresso_icloc.pdf

quarta-feira, 11 de maio de 2016

#GAY#3 - Micro-História da (homo)sexualidade

   WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. p. 35-82.

   Este texto do Jeffrey Weeks é realmente longo e aborda muitas peculiaridades referente a sexualidade. É o segundo texto do livro, o primeiro se encontra resenhado aqui. Em um momento discute-se sobre o sexo, corpo, binarismo, marcadores sociais, interseccionalidade, identidade de gênero, desejo erótico, história da homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade, entre outros. E como eu não saberia tratar destes assuntos em um único texto relativamente curto decidi me ater ao histórico da sexualidade apresentado em seu discurso de forma bem resumida.

   Vocês já pensaram em algum momento sobre a história do grupo gay? Quando foram que surgiram seus primeiros registros, quando foram cunhados estes termos: gays, lésbicas, homossexual, homossexualidade, bissexual, queer, etc.? Em linhas gerais eu só tinha a informação que a homossexualidade masculina era permitida entre os homens gregos, mas não sei em que medidas; também ouvi boatos que na idade média os homens da igreja católica também praticavam atos homossexuais por baixo dos panos. Mas e a verdade? 
   Segundo WEEKS, os termos heterossexalidade e a homossexualidade são recentes na história da humanidade, e foram cunhados para delimitar e definir sujeitos que apresentavam comportamentos sexuais distintos. A heterossexualidade foi reforçada pelo conceito da homossexualidade que a usava como contra ponto definidor. Estes novos termos apareceram, em meados do séxulo XIX, em uma campanha reformadora que tinha como intenção definir a sexualidade normal. O ato sexual entre pessoas do mesmo sexo era considerado até então de natureza pecadora. 
“Antes do século XIX a homossexualidade existia, mas o homossexual não. Embora a homossexualidade tenha existido em todos os tipos de sociedade, em todos os tempos, e tenha sido, sob diversas formas, aceita ou rejeitada, como parte dos costumes e dos hábitos sociais dessas sociedades, somente a partir so século XIX e nas sociedades industrializadas ocidentais, é que se desenvolveu uma categoria homossexual distintiva e uma identidade a ela associada. Ao definir o sentimento sexual contrário, ou a existência de um terceiro gênero ou de um gênero intermediário, assinalou-se a descoberta ou o reconhecimento de um tipo distinto de pessoa, cuja essência sexual era significativamente diferente daquela do/da heterossexual” (WEEKS, p. 64-65)
   A atividade sexual entre homens era considerada normal, quando se trata de um homem mais velho que mantinha relações ativas com um homem mais novo e se quando este envelhecer passar a ter apenas relações ativas com caras mais novos. No entanto a definição dos reformadores foi utilizada pelos primeiros sexólogos em seus discursos médicos-moralistas já no início do século XX.
   A partir daí, tivemos a perseguição dos modelos que tentavam borrar tanto as identidades de gênero que não se enquadravam na norma binária difundida: (Homem-mulher; Masculino-feminino) e o desejo erótico entre pessoas do mesmo sexo em quaisquer circunstâncias. Houveram alguns momentos de maior flexibilização, como períodos mais duros que envolveram a patologização da homossexualidade, a criminalização e caçada aos homossexuais. 
  O século XX trouxe consigo e com seus ativistas diversas conquistas de direitos e reconhecimento a diversidade como inflou também os setores mais conservadores da sociedade que combateu os direitos recém conquistados. E hoje? Qual a história que queremos escrever e deixar escrita para nossos futuros cidadãos, sejam eles nossos filhos adotados, familiares próximos, etc.?

   O vídeo não trás informações sobre a história da sexualidade, mas como não achei nenhum vídeo legal sobre este tema. Trouxe um que gosto bastante sobre ativistas, que considero ser uma forma de tentar mudar as ideias no mundo...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Adeus

   Quando era pequeno com cerca de meus cinco anos de idade e inexperiência, passei pela minha primeira experiência com a morte de alguém próximo. O vizinho dos meus pai, que sempre cuidava de mim quando meus pais precisavam me deixar em casa, faleceu. Ele era dono do bar da esquina e por isto conhecido por muitos. 
  Houve aquela comoção, alguns familiares que nunca vi antes apareceram e a vizinhança no geral se mobilizou para os eventos fúnebres comuns a cultura católica-românica. Eu não entendia nada, eram muitos termos novos: enterro, velório, missa de sétimo dia, etc.
   Alguns dias depois eu fiquei em casa sozinho, pois meus pais trabalhavam e não tinha mais para onde ir naquele momento que estaria com o vizinho. Tive a brilhante ideia de ouvir música, e já que o aparelho de casa permitia, coloquei o volume no máximo e fiquei ali curtindo minha música, até minha mãe chegar e me dar uma bronca daquelas:
   - Que falta de respeito, menino, não se ouve música alta quando alguém acabou de falecer.
   Fiquei com vergonha, afinal ela parecia mesmo ter ficado brava. Mas não me contive e perguntei:
   - Mas não morrem pessoas todos os dias? Então nunca podemos ouvir música alta, certo?
   Fiquei sem resposta. Mas depois deste tempo tive uma curiosidade maior sobre meu avô que se foi antes mesmo de eu ter sido gerado. A mais de 3 décadas atrás. Descobri que minha mãe o acompanhava no hospital e foi uma das primeiras pessoas a saber. Cuidou de toda a burocracia e fortemente foi a que melhor lidou com a ausência definitiva de seu maior ídolo.
   Semana passada cheguei em casa tarde depois de ter comparecido a uma palestra e minha mãe fala calmamente:
   - Mãe morreu.
   Seca, direta, forte, com a intenção maior de ter a obrigação de me informar antes que eu soubesse por outras pessoas, do que pela vontade de ter me contado ou com a vontade de compartilhar qualquer sentimento que estivesse latente.
   Sinceramente não senti nada pela minha avó. Nunca fomos próximos e a história da minha família no geral pelos meus pais e por mim, nos afastou desde meu nascimento. Mas desejei que independente das diferenças de crenças entre nós (eu e minha vó), todo o bem no que considero esta passagem.
  Minha maior preocupação foi a minha mãe. Não pude conter meu despreparo para apoia-la, mas a enchi de perguntas sobre seu estado. E pude perceber como ela considera a morte apenas como um ritual obrigatório desta vida e que tudo o que temos que fazer que seja em vida, pois depois dela só nos resta desejar.



   

sexta-feira, 6 de maio de 2016

#livro - O menino de vestido

capa do livro em português
    Este é um livro recomendado para pessoas com 12 a 17 anos. Peguei emprestado da Biblioteca Parque Villa-Lobos, com mais outros quatro (A arte de ser normal, Elisa Williamson; Este liro é gay, James Dawson, Minha mente silenciosa, Andrew Smith) sobre a temática LGBTQ que estava procurando em alguma promoção mas sem sucesso.
   Preciso considerar alguns pontos: 1 - a biblioteca está de parabéns por oferecer estes títulos tão 'diversos'; 2 - novos e em bom estado e 3 - na seção juvenil. Fiquei realmente surpreso e feliz com minha visita até lá. Ainda mais que estou a busca de material que fale sobre as questões LGBTQ para os anos iniciais do Ensino Fundamental.

   David Walliams é autor de um livro muito famoso entre os meus alunos e entre outros pré-adolescente intitulado 'Vovó vigarista'. É britânico, ganhou alguns prêmios de literatura lá fora e isto é tudo o que eu sei. Quando bati o olho na capa do livro que por acaso retirei da prateleira fiquei muito contente com o golpe de sorte.
   O texto é simples e direto, com diálogos e algumas ilustrações do famoso Quentin Blake, que também ilustrou as obras do Roald Dahl, criador da Matilda, Fantástica Fábrica de Chocolate, etc. entre outros.
   
   Bom, Dennis o personagem principal, mora somente com o pai e o irmão mais velho (uma família nada brasileira). Sua mãe partira há algum tempo e sua ausência repercutia na casa como um todo. Ninguém mais dialogava, não havia festas, viagens em família, e a prática do abraço estava proibidamente vetada.
   Dennis tinha 12 anos, jogava futebol melhor do que ninguém e tinha poucos amigos. Seu melhor amigo é descendente de indiano (esta deve ser uma temática comum lá na Inglaterra). No meio da história ele se torna amigo da menina mais popular da escola e aí que as coisas mudam de rumo.
   Entre segredos descobertos debaixo do colchão pelo seu pai, brincadeiras de meninas e meninos, a história literalmente brinca com as identidades de gênero e as divisões heteronormativas entre meninos e meninas e de quebra ainda intersecciona delicadamente com desejo erótico e sexual. (Me controlando para não dar spoil neste momento).
   Minha crítica mais dura se dá nos últimos capítulos, quando há um leve incitamento de uma postura machista e heteronormativa por um dos personagens possivelmente homossexual.

Referência: WALLIAMS, David; BLAKE, Quentin, il. O menino de vestido. Rio de Janeiro. Intrínseca, 2014.

   O livro me fez lembrar desta música:

"The girls wanna play with boys
And the boys wanna play with girls
And the girls wanna play with girls
Boys wanna play with boys"


quarta-feira, 4 de maio de 2016

#GAY#2 - A construção do homem

- Sente-se direito menino! - falou a mãe
E o menino que assistia a televisão, ficou sem saber o que fazer, ou o como deveria se portar, afinal, estava sozinho na sala, jogado no sofá, com a cara e os joelhos rente a almofada e bunda pra cima.
- Deixe o menino em paz. - logo exclamou o pai, repreendendo a esposa e reconfortando o menino. - Ele não está fazendo nada demais.
Talvez mais tarde aquele menino tenha aprendido que o certo é um garoto se sentar com a bunda pra baixo, preferencialmente sentado no cocix, com as pernas abertas em uma pose mais ‘macho’. Talvez ele tenha se tornado afeminado e muitos outros então falariam mais que sua mãe de inicio.


 Este trecho traduz o que Guacira afirma como “As muitas formas de fazer-se mulher e homem, às várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente”. Ou seja, as identidades de gênero são construídas socialmente e variam historicamente, de geração, raça, nacionalidade, religião, classe, etnia... isto explicaria em muito a diversidade dos indivíduos.
 O que não faz sentido é que “através de processos culturais, definimos o que é, ou não, natural; produzimos e transformamos a natureza e a biologia e, consequentemente, as tornamos históricas.” A própria biologia é sócio-histórica, muda através dos tempos e dos conhecimentos construídos. “Aparentemente se deduz uma identidade de gênero, sexual ou étnica de ‘marcas’ biológicas que pode ser, e muitas vezes é, equivocada”
 Assim como mostrado no trecho acima “A ‘produção do menino’ era um projeto amplo, integral, que se desdobrava em inúmeras situações e que tinha como alvo uma determinada forma de masculinidade”. “O homem ‘de verdade’ deveria ser ponderado, provavelmente contido na expressão de seus sentimentos. Consequentemente, podemos supor que a expressão de emoções e o arrebatamento seriam considerados, em contraponto, características femininas”.
“Para que se efetivem essas marcas, um investimento significativo é posto em ação: família, escola, mídia, igreja, lei participam dessa produção”, tentarei analisar mais sobre o papel da escola nesta tentativa de normalizar o comportamento sexual de crianças e adolescentes, pois, “A escola precisa, incentivar a sexualidade ‘normal’ e, de outro, simultaneamente, contê-la. Um homem ou uma mulher ‘de verdade’ deverão ser necessariamente, heterossexuais e serão estimulados para isso”

 Muitas vezes me pergunto o que então me define como homem cis? Quais os significados que estou atribuindo ao meu corpo nesta busca? Como sou designado pelos outros e a partir de quais referências estou sendo constantemente avaliado? Quantas vezes fui julgado por ter chorado em público? Quantas vezes mostrar meus sentimentos foi visto como algo esquisito? Por que ser chamado de bicha, gay, viado, já doeu tanto e hoje nem vejo mais este vocabulários como formas pejorativas de designação?



Esta foi uma tentativa de fazer uma micro e breve análise do primeiro texto intitulado: 'Pedagogias da sexualidade' de Guacira Lopes Louro do livro 'O corpo educado: pedagogias da sexualidade' de organização da própria autora.
 Os outros cinco textos são de Jeffrey Weeks, Deborah Britzman, bell hooks, Richard Parker e Judith Butler e serão resenhados em breve aqui também.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

#PeriferiaTrans

Apresentação do evento elo coletivo.
 A segunda edição do Periferia Trans aconteceu em abril último. Fui em praticamente em todas as palestras e outros eventos como peças e show. Só tenho a agradecer a realização de um evento tão tão tão bom que interseccionou diversos marcadores sociais como mulheres, trans, periferias, negros, gays em um só lugar.
   Hoje além da apresentação de Liniker, quem não conhece faça o favor de ver todos os vídeos, baixar todas as músicas e se embebedar desta música tão boa. Cheguei mais que atrasado, porque confundi o horário mesmo, mas o fervo continuava quando lá apareci e aproveitei ainda mais umas horinhas de festa com as amigas.
   Dialogou-se sobre uma gama enorme de assuntos englobados pela diversidade. Compareci as seguintes discussões: teoria queer, fundamentalistas e estudos bíblicos histórico-críticos, família e diversidade e gays na periferia; assisti as peças sobre identidade de gênero, corpos negros e homoafetividade.
   Nasci outro dentro de mim mesmo após tanta trocas de experiência e relações. Espero poder voltar meu olhar mais para este lugar que nasci e cresci chamado e generalizado de periferia, mas que como só quem é daqui nasceu: cada vila é única e ao mesmo tempo diversa.
 As fotos abaixo eu emprestei da página do evento, pois minha figura apareceu nelas: https://www.facebook.com/periferiatrans/?fref=ts

eu sou este de camiseta azul...


sou o segunda da esquerda para a direta... de perna cruzada...

estou bem pequeno atras do cara de rosa...

à direta de shorts azul e camiseta rosa...

de blusa marrom no primeiro plano....
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...