segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Perfume

   Quando bate aquela lembrança excitada por um estímulo externo, parece até que a alma descola do corpo e nos vemos de outra dimensão. É tudo tão rápido, logo volta-se para a casca habitual e procura-se de onde vem o tal do cheiro, da imagem, do som, ou seja do que nos assaltou a percepção assim tão repentinamente.
   Costumo ter estes repentes principalmente quando sinto um perfume de um ente muito querido ou aquela batida de música dos fones alheios no transporte público de nossa capital paulistana. Músicas do rádio são facilmente reconhecidas graças aos aplicativos de reconhecimento de faixas.
   No que tange aos odores alheios, é muito provável que além do deslocamento básico entre corpo e alma, ainda sigam-se arrepios, daqueles de eriçar todos os pelos do corpo, aquele tranco na nuca e uma leve excitação. Além claro da vontade enorme de se identificar quem foi o sujeito que nos fez decorar este perfume.
   Particularmente gosto bastante destes momentos, contrariando o racional, ao dizer que se deve esquecer uma pessoa quando ela não é mais bem quista. Como se não fosse possível crescer e aproveitar o que se viveu por querer esquecer a pessoa momentaneamente.
   Amo estas lembranças repentinas de tudo o que se foi vivido. Parecem as famosas vinhetas de morte: tudo (uma transa, um mês, três anos) se passa como um resumo do que foi vivido em apenas uns 10 segundos. E depois continuamos os mesmos, só que diferentes, o que seria o caminho mais correto a ser percorrido, mudar-se para continuar o mesmo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

"meu nego"

 Ao sentir, o cheiro da grama e da terra, o despertar das narinas, o sol aquecer a pele e diminuir as pupilas até que se tornem uma fina linha na íris, o vento eriçar os pelos do corpo em uma brisa geladinha ou bagunçar os cabelos quando mais forte.

 Nada disto mudou, além de sua ausência, que nem corta mais o meu coração. Afinal o tempo passa e o que me restou de ti são as minhas lembranças tuas sobre nós.
Manhãs ensolaradas, uma volta no parque, corridas com o golden, muitas paradas pra o descanso merecido sentados sobre a toalha xadrez, pouca leitura e muito tempo rolando na grama.

 Barthô era fofinho, mas qual barriga de cachorro não é quentinha, fofinha e convidativa a um breve descanso de cabeça? Mesmo que durasse pouco, valia a pena, e era acompanhada de abraços peludos, lambidas e gargalhadas.

 Tudo isto permanece, exceto a tua ausência. Teu sorriso tímido, olhos castanhos jabuticabas e miúdos, cabelos pretinhos e encaracoladamente encaracolados, tez de chocolate, ar sereno e acolhedor, humor ácido, acompanhados de inúmeras piadas.
 Nada disto mudou, assim espero. Além do "meu nego" que não é mais meu, mas fez parte de um dos melhores momentos de minha vida terrena.

 Quantas vezes cruzamos a cidade, fizemos programas mal quistos, assisti a Tv, acordaste cedo? Fomos bons companheiros, todavia não soubemos lidar com algo que nem sei como se chama, como cheira, que formato, cor ou tamanho tens.

 Não te desejo nada, pois no momento, e futuramente, não me permito sentir qualquer coisa por ti. Prefiro preservar as boas lembranças que ficaram por gostar delas, pois a certeza que tenho foi que te amei.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Violência?

Viver em constante contato com outras pessoas é bem comum para quem vive em uma grande cidade. Muitas destas pessoas não são nem amigos, conhecidos, familiares, simplesmente são pessoas com as quais momentaneamente se divide o mesmo espaço e atividade. Conviver com pessoas com as quais o relacionamento é ínfimo é bem difícil as vezes e paira sobre nossa cultura uma intolerância e desrespeito sobre o outro que é ímpar.

Comecei a jogar vôlei este ano. Do zero. Nunca tinha jogado e não tinha a menor ideia de todas as regras que cercam este esporte. Quatro meses depois jogo como um verdadeiro amador que mais se diverte do que contribui para que meu time marque mais um ponto no placar. Por ser um esporte coletivo que depende de todas as seis pessoas em quadra, acredito que meu mau desempenho ocasione  muitos sentimentos nos integrantes do time.

Passei muito tempo ouvindo e prestando muita atenção nas dicas, broncas e palpites alheios. Afinal preciso ainda hoje de muitos toques para que eu crie volume de jogo em quadra. Porém aconteceram dois eventos que me deixaram muito aborrecidos. O primeiro foi a criação de um apelido muito "inocente", dado por um dos melhores jogares do treino e no segundo presencial a briga verbal e física de outros dois jogadores.

Ser um "poste" em quadra nunca foi a minha intenção, muito pelo contrário, mas ainda não aprendi muito bem aquela posição de expectativa, muito menos sou ágil o suficiente pra correr atrás de bolas difíceis. Ouvir dois marmanjos se xingando, e dando socos um no outro também não fazia parte das minhas expectativas como jogador inexperiente.

Em ambas as situações fiquei atônito, parecia que só meu corpo permaneceu em quadra. Pior do que antes que pelo menos eu tentava fazer as jogadas, posicionamento corretos. Fiz muito mais cagadas e cometi muito mais erros que antes. Não deu vontade de falar alguma coisa, nem de revidar, pedir pra parar, nem de fugir, só de ignorar e torcer para que o tempo acabasse com a partida.

Saí dos dois jogos arrasado com a parcimônia pela agressão alheia. Em que mundo estamos vivendo que não podemos errar? Não podemos aprender? Temos que ser perfeitos, pois corremos o risco de em qualquer deslize sermos agredidos? Creio que não, ha outros caminhos para se mostrar erros, ajudar e tentar corrigi-los, fazer de toda experiência humana um aprendizado para todos.
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